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Construir uma nação

Sejamos sinceros. O passado não é favorável. Desde que o primeiro Português repousou os olhos sobre esta terra, não enxergou ali uma futura nação. Não viu ali um belo local para se construir um país.

A certidão de nascimento do país, diz a historia, vem crivada de elogios à terra recém-descoberta. Louva a beleza, a riqueza, o potencial produtivo. “Em se plantando, tudo da!”, sentenciou.  Talvez até desse. Ou mesmo até de hoje em dia. Mas ficou tudo meio suspeito quando o autor, no mesmo documento pediu emprego para parente ao final de tantos elogios.

Não havia duvida a partir daquele momento de que, o que se estava fundando, era um local para a acumulação de riqueza. Não era pátria. Não se tratava de nação. Moradia permanente, menos ainda. Cidadania, nem pensar. Era lugar para explorar. E ponto.

Talvez por isso, os habitantes daquela terra, no passado, no presente e certamente no futuro, adotariam como nome palavra que, em qualquer outra circunstância, designaria profissão. Foram autoproclamados brasileiros. Poderia ser brasiliense, brasiliano, ou qualquer outra coisa. Mas não. São brasileiros. Ou aqueles que vivem de explorar um local.

Faz provavelmente muito sentido que tenha sido assim. Faz menos sentido que não tenha mudado. Construir uma nação não é profissão. É missão. Não é medido em unidade monetária. Nação é por natureza, intangível. Requer ambição, fé, dedicação e sacrifício. Demanda identidade própria que deve ser celebrada e preservada. Uma verdadeira nação constrói um lar coletivo para as gerações futuras.

E a trajetória não negou essa visão. Enquanto a França lutava por igualdade, liberdade e fraternidade, a gente explorava escravidão. Enquanto os EUA fundavam uma republica, a gente se agarrava à monarquia.

Enquanto os EUA enviavam homens ao espaço, a gente ainda lutava contra o analfabetismo. Contra a saúva. Contra a fome. Contra a miséria. Tudo sem plano, sem projeto, quase sem sonho.

Mas tudo isso é passado. Cruel, triste e imutável. O passado nos pertence, mas não nos prende. Futuro é coisa maleável. É coleção de possibilidades e probabilidades onde tudo, ou quase tudo é possível. Nele, o passado pode repetir-se e reproduzir-se. Mas também pode ser melhor. Diferente. Mais justo.

Basta que, na sequencia finita de coincidências que caracteriza a existência, exista o desejo e a energia para se criar uma nação. E isso se faz com sonhos. Não com frustrações.

 

Elton Simões
Graduado em Direito (PUC);
Administração de Empresas (FGV);
MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução
de Conflitos (University of Victoria). 

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